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Rio Grande do Sul

Artigo

A cozinha não é um reality show

por Rodrigo Câmara - Chef de Cozinha

Difícil eleger alguém que ainda não tenha sido contaminado pela onda de reality shows de gastronomia e virado fã desses programas. De fato, eles viciam e é inegável que as pessoas acabam se identificando ou torcendo por aqueles personagens. A gastronomia ganhou um novo status e novos amantes. Mas é verdade, também, que nunca se teve tanta certeza de quem vive, na prática, a cozinha profissional, a realidade é outra. Muito diferente do que aparece nas telinhas, de forma tão gourmetizada e glamourizada. 

Para aqueles que acham que trabalhamos em bancadas individuais, com uma gama enorme de insumos e equipamentos disponíveis, com duas horas para concluir um preparo, tendo ainda o auxílio de grandes chefs e liberdade de criação para o prato perfeito, desculpe, mas estão todos enganados! Não se trabalha em bancadas individuais, não há inúmeros equipamentos de ponta disponíveis e nem uma quantidade de insumos infinita ao seu dispor. Quando em raros momentos começo a assistir um programa de televisão onde mostra pessoas indo ao “mercado” voltando com uma cesta lotada de coisas para fazer apenas um prato, isso me entristece muito em uma época em que se fala tanto em sustentabilidade. Não trabalhamos dessa forma. Na vida real batalhamos no sentido contrário, evitando o desperdício. 

Em um restaurante, vemos técnica e agilidade, longe de ter pessoas correndo dentro de uma cozinha e se batendo. Vemos compromisso, com o sentido mais puro da palavra equipe. Vemos pressão, calor, desconforto e longas jornadas de trabalho. Longas mesmo. São 14, 16, 18 horas. Muitas vezes sem intervalo de almoço, sem backup, sem feriados, aniversários, Natal ou Ano Novo. Claro, que isso não é regra, mas quem vive de gastronomia sabe deste desafio real. 

A criatividade na cozinha fica para outros momentos fora do dia a dia corrido. Nenhum chefe de cozinha gostaria que seus cozinheiros testassem pratos durante um serviço ou evento, para mostrar suas habilidades e dotes criativos. Isso é inadmissível em uma cozinha profissional. 

Como docente me deparo com inúmeras situações que causam desconforto no ambiente pedagógico ocasionado pela glamourização gourmet que vivemos. Exigimos hierarquia, respeito pela equipe, relacionamento interpessoal, seriedade, flexibilidade, humildade e resiliência. Em troca oferecemos técnica, vivência prática e profissionalização. Que quer crescer nessa área precisa suportar a jornada de trabalho, ser curioso e estudar muito. Superar seus limites físicos e emocionais, e principalmente, gostar do que faz. Esses são os requisitos básicos para quem quer ser um cozinheiro profissional e não um personagem a serviço do entretenimento. 

Não tenha falsas ilusões. Cozinha profissional não é e nem se parece com um reality show. Programas de televisão são feitos para entreter, tem pauta, direção, edição e todo um trabalho realizado por profissionais para tornar aquilo atraente, cativar o espectador e fazer como o próprio nome sugere: um show! 

 

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